quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A morte de Judas Iscariotes

A morte de Judas Iscariotes é descrita na Bíblia de duas maneiras diferentes, porém, que se completam sem precisar de muito esforço para entender a relação entre elas.

  • Segundo a narrativa de Mateus, Judas Iscariotes enforcou-se:
"E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar" (Mateus 27: 5)

  • Segundo a narrativa de Lucas, Pedro afirma que Judas Iscariotes lançou-se de um precipício.
"Ora, este adquiriu um campo com o galardão da iniquidade; e, precipitando-se, rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram." (Atos 1: 18)

Infelizmente, muitos cristãos deixam a incredulidade falar mais alto e acabam considerando estas duas narrativas como opostas uma à outra, creditando os textos acima referidos à inspiração humana e não divina.

Não creio que seja importante a narrativa histórica de como Judas Iscariotes morreu. E também não creio que ela está na Bíblia apenas para este fim. A grande questão por trás disso é o que levou Iscariotes a tal fim.

Na noite da ceia dois homens traíram vergonhosamente seu Mestre. Judas Iscariotes o entregou aos sacerdotes e capitães da guarda em troca de dinheiro (Lucas 22: 3-4) e Pedro jurou não conhecer Jesus quando interrogado (Marcos 14: 71). O grande discípulo de Jesus e o traidor tem em comum suas atitudes em relação a Cristo naquela noite.

Ambos erraram, deram espaço à suas vontades. Judas Iscariotes, me parece, esperava que Jesus se revoltasse e se levantasse em armas quando percebesse a chegada dos guardas: tinha uma visão política e terrena a respeito do reino que Jesus dizia estar próximo de implantar. Pedro, por sua vez, queria apenas poder acompanhar o que estava acontecendo com Jesus sem comprometer sua segurança.

Naquela mesma noite, ao negar Jesus pela terceira vez, Pedro lembrou-se das palavras do Mestre acerca de negar conhecê-lo e chorou amargamente (Mateus 26: 75). Na manhã seguinte à prisão de Jesus, Judas Iscariotes, que já havia dado lugar a Satanás em sua vida (Lucas 22: 3), movido pelo remorso (Mateus 27: 3), tentou, sem êxito, devolver as moedas, achando que assim Jesus seria liberto.

A diferença entre Pedro e Judas Iscariotes é que Pedro verdadeiramente se arrependeu, e, pelo verdadeiro arrependimento esteve com Jesus depois de ressuscitado e recebeu do Mestre a chance de proclamar seu amor a Ele pessoalmente por mais três vezes, uma para cada vez que O negou (João 21: 15-19).

O remorso de Judas Iscariotes o levou a se deixar tomar mais uma vez por Satanás, retirando-se para longe e enforcando-se. Em nenhum momento ele reconheceu Jesus como o Filho do Homem, mas como alguém inocente que não deveria ter sido condenado. Judas foi movido pela culpa, seu arrependimento não foi verdadeiro, antes, foi um remorso.

Eis o grande objetivo da narrativa do suicídio de Judas Iscariotes: nos alertar a viver o verdadeiro arrependimento  - que leva à salvação - e não o remorso que provém da culpa - que leva à morte. O arrependimento gera uma mudança de vida, enquanto o remorso gera apenas um peso na consciência.

"Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte." (2 Coríntios 7: 10)



Sobre a circunstância da morte de Judas Iscariotes, segue abaixo um relato extraído do livro "Doze homens e uma missão", de Aramis C. de Barros:

"Como podemos conciliar essa descrição de Pedro com o texto de Mateus 27: 5 onde a narrativa do suicídio de Judas não apresenta qualquer referência a essa cena macabra?
O verbo grego empregado no relato de Mateus (apenxato, aoristo de apancho), cujo significado tornou-se específico a partir do quinto século antes de Cristo, dá a ideia de que Judas apertou um nó ao redor de seu pescoço e saltou de um galho de árvore ao qual estava atado. Mateus, portanto, encerra seu enfoque sobre Judas com a cena do enforcamento. Por outro lado, no cenáculo, Pedro tem em mente não o enforcamento em si, mas a cena macabra que se sucedeu a ele, algo que de tão medonho, ficou gravado na memória de quem o testemunhou.
Diante das diferenças apresentadas por estes relatos, supõe-se que o galho no qual o traidor se pendurou projetava-se sobre um precipício relativamente alto e, talvez por um forte vento, rompeu-se, lançando ribanceira abaixo corpo de Judas. O verbo "romper" (gr. lakeo) empregado por Pedro, significa tam­bém "estourar", sugerindo que o despencar do corpo de Judas resultou numa violenta queda com consequente mutilação, devido ao forte impacto."


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